Perfis das juventudes brasileiras: o que dizem os números?

Violência, desigualdades, práticas culturais e políticas são temas de destaque em pesquisas e relatórios.



No Brasil, a PEC da Juventude aprovada em 2010 - , e o Estatuto da Juventude sancionado em 2013 - classificam como jovem no Brasil todo cidadão que tenha entre 15 e 29 anos de idade. Considerando a juventude como uma categoria não somente etária, mas também social, o conceito vai além.


A percepção das juventudes como categorias sociais se fortalece a partir da segunda metade do século XX, no contexto da urbanização que fez dos jovens alvos de preocupação do Estado e de setores sociais, principalmente no que diz respeito aos temas da educação, trabalho e nas formas de evitar ou de reduzir a marginalidade social. As juventudes também tiveram destaque como protagonistas do consumo de bens culturais e simbólicos no contexto de desenvolvimento e popularização das indústrias culturais, a partir do avanço técnico e da expansão dos meios massivos de comunicação: eletrônicos e digitais.


Para além da categoria natural ou biológica, é preciso considerar as juventudes como uma construção social condicionada a cada período histórico. Assim, enquanto as sociedades modernas caracterizavam a juventude como fase transitória entre a condição infantil e a vida adulta, a tradição sociológica também “considerava a juventude das sociedades modernas, em especial das cidades, elemento ‘desviante’ em relação ao que se imaginava ser o funcionamento harmônico da sociedade” (CATANI; GILIOTI, 2008, p. 14).


A participação das juventudes


A participação é um direito fundamental dos/as jovens. Desde muito antes da elaboração e aprovação do Estatuto da Juventude (Lei 12.852/2013), esse tema já tinha centralidade nos debates sobre políticas e direitos dos jovens. É possível dizer, inclusive, que a própria agenda sobre o tema também nasce da preocupação de incluí-lo como sujeito político capaz de influenciar os rumos da sociedade, especialmente dos cidadãos em formação.


De acordo com a socióloga Helena Abramo, a participação coletiva “continua sendo uma demanda que se vincula à própria possibilidade de formular e lutar pelas outras demandas” (ABRAMO, 2005, p. 63). Portanto, não é à toa que ao se ler o Estatuto da Juventude se reconhece o direito à participação não apenas na 1ª Seção (“Do Direito à Cidadania, à Participação Social e Política e à Representação Juvenil”, nos termos do documento), mas também como tema transversal.


O direito à participação aparece como um dos princípios que regem o Estatuto da Juventude configurado pela ideia de “valorização e promoção da participação social e política dos jovens, de forma direta e por meio de suas representações”. Ele também aparece nas diretrizes gerais do documento, na ideia de incentivo à “ampla participação juvenil em sua formulação, implementação e avaliação” das políticas públicas de juventude; e, ainda, quando se busca “ampliar as alternativas de inserção social do jovem promovendo programas que priorizem o seu desenvolvimento integral e a participação ativa nos espaços decisórios”. Talvez não seja exagero afirmar, então, que é possível pensar a participação como condição para a realização integral dos demais direitos dos/as jovens brasileiros/as.


As demandas de participação juvenil podem ser vistas por dois ângulos. Primeiro, como um meio, isto é, um canal imprescindível para levar demandas de distribuição e de reconhecimento ao espaço público democrático; o segundo diz respeito aos espaços das políticas públicas para as juventudes. Nesses espaços – entre os quais se destacam os conselhos – a participação torna-se ela mesma uma demanda específica, na medida em que remete às decisões sobre desenho, validação, acompanhamento e avaliação de programas e ações voltadas para o seu segmento populacional reconhecido pelas próprias legislações e políticas públicas.


Existem muitas formas de participação e muitas demandas relacionadas à participação juvenil, que vão desde petições online até mobilizações de rua e estratégias de representação juvenil em organizações e espaços políticos, bem como modalidades de participação institucional: aquelas que privilegiam um diálogo entre poderes públicos e a sociedade civil. Entre essas formas, estão as conferências, os conselhos e as audiências públicas, por exemplo. Todas as modalidades de participação, institucionais ou não, podem ter efeitos sobre decisões políticas que estão sendo tomadas. Muitos autores afirmam que a participação só existe de fato, quando o poder de decisão é compartilhado, quando é possível que os segmentos sociais mobilizados interfiram nos rumos da política, ou seja, nos rumos da sociedade e de suas legislações.


De acordo com informações do IBGE divulgadas em 2015 - os jovens representam um quarto da população do país, e somam um total de mais de 51,3 milhões de jovens de 15 a 29 anos, que vivem atualmente no Brasil, sendo 84,8 % deles nas cidades e outros 15,2 % no campo. A pesquisa mostra que 53,5% dos jovens de 15 a 29 anos, portanto mais da metade deles, são apenas trabalhadores, outros 36% apenas estudam e os demais 22,8% trabalham e estudam simultaneamente.


Um levantamento realizado pela Secretaria Nacional da Juventude (SNJ) - da Secretaria Geral da Presidência da República e divulgado em 2019 apontou que na faixa etária de 15 a 17 anos 65% estudam e 16% trabalham. Entre os jovens de 25 a 29 anos, mais de 70% trabalha ou está procurando trabalho, enquanto apenas 12% ainda estudam.


Este mesmo estudo aponta que o ingresso no mercado de trabalho ocorre predominantemente aos 18 anos, e é marcado por desigualdades sociais: Os jovens de renda mais elevada estão sujeitos aos menores índices de desemprego. A chamada “inatividade” juvenil atinge mais intensamente jovens mulheres e negras. Os trabalhos informais são ocupados, sobretudo, por jovens de baixa renda e baixa escolaridade, mulheres e principalmente por jovens negros de ambos os sexos.


De acordo com o Censo (2010), apenas 16,2% dos jovens brasileiros tinham acesso ao ensino superior (cursando ou formados), 46,3% concluíram o ensino médio e 35,9% estudaram até o ensino fundamental. Se comparadas as escolaridades dos jovens com a de seus pais, os dados representam um ganho educacional nas novas gerações. O relatório da Secretaria Nacional da Juventude constatou que apenas 5% dos pais e 6% das mães tiveram acesso ao ensino superior (contra os 16,2% dos jovens de hoje), 22% dos pais e 23% das mães concluíram o ensino médio.


Com uma distribuição de gênero similar (49,6% homens e 50,4% mulheres), seis em cada dez entrevistados declararam-se de cor parda (45%) ou preta (15%) e 34% da cor branca. No levantamento da SNJ, a proporção de jovens que se diz preta é maior (15%) do que a identificada pelo Censo (7,9%). A Secretaria acredita em uma tendência de crescimento de autodeclaração da cor preta. Ainda segundo a pesquisa da SJN, 66% dos jovens brasileiros são solteiros e 61% vivem com os pais e 40% deles já têm filhos.


Em relação ao uso das tecnologias, a pesquisa evidenciou que 80% dos jovens usam computadores e internet, e 89% têm celular. Quando questionados sobre os problemas que mais preocupam a juventude brasileira, as temáticas mais citadas foram: violência e a segurança do país (43%), emprego ou profissão (34%), saúde (26%) e educação (23%). Segundo a pesquisa, 51% dos jovens já perderam alguém próximo em razão da violência social. As vítimas, na maioria dos casos, eram amigos (18%) e primos (12%), ou seja, companheiros de geração.


Entre os assuntos que os jovens consideram mais importantes para serem discutidos pela sociedade destacam-se: desigualdade social e pobreza (40%), drogas e violência (38%), política (33%), cidadania e direitos humanos (32%), educação e futuro profissional (25%), racismo (25%), meio-ambiente e desenvolvimento sustentável (24%).


A política é valorizada pela maioria dos jovens: 83% dos jovens acham que a política é muito importante. E apenas 16% acham que a política não é nada importante. O valor atribuído à política cresce conforme aumenta a renda: 47% dos jovens de estratos de renda baixa consideram a política muito importante, opinião que é compartilhada por 56% dos entrevistados de estratos médios e por 70% daqueles de alta renda.


Com foco no uso das tecnologias, a pesquisa Juventude Conectada (2016), idealizada pela Fundação Telefônica-Vivo e realizada em parceria com IBOPE, Instituto Paulo Montenegro e a Escola do Futuro, mostrou que entre as atividades mais frequentemente realizadas a partir do uso da internet pelos jovens com idade entre 15 e 29 anos destacam-se: acesso a redes sociais, troca de e-mails e conversas por mensagens instantâneas. A pesquisa indica que as comunidades virtuais estão criando plataformas adicionais importantes para facilitar a participação cidadã na esfera pública do ciberespaço, seja de natureza política, educacional ou cultural.


As tecnologias digitais e a participação político-cidadã também são temas abordados do documento Dimensões da Experiência Juvenil Brasileira e Novos Desafios às Políticas Públicas - elaborado pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e divulgado em 2016, assim como outros temas, como violência, desigualdades e práticas culturais.



ABRAMO, H. W. Condição Juvenil no Brasil contemporâneo. In: ABRAMO, H. W.; BRANCO, P. P. M. (Orgs.). Retratos da Juventude Brasileira: Análises de uma pesquisa nacional. 1. ed. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2005. p. 37-72.


CATANI, A. M,; GILIOLI, R. S. P. Culturas Juvenis: múltiplos olhares. São Paulo: Editora Unesp, 2004.


SPOSITO, M. P. Estado de Conhecimento: juventude e escolarização. São Paulo: Ação Educativa/Inep, 2000.

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O OBSERVATÓRIO

O Observatório de Participação das Juventudes é uma plataforma de mapeamento de atividades de participação. Desenvolvido por Aline Camargo, o projeto traz resultados de pesquisa de Doutorado realizada no Programa de Pós – Graduação em Mídia e Tecnologia (Universidade Estadual Paulista Unesp) e possibilitada a partir do apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

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