Tecnologias digitais e potencial democrático



Divididos entre apocalípticos e integrados, a dualidade em torno do potencial e do real, o otimismo e o pessimismo, tem-se a visão compartilhada por Polat (2005, p. 442) que “a internet potencialmente fornece uma aproximação bastante perto de uma situação ideal em que os cidadãos teriam pleno conhecimento sobre as questões políticas”. No entanto, salienta que “esta possibilidade se baseia na suposição de que as pessoas são suficientemente interessadas em obter as informações relevantes, assume também que os cidadãos têm o acesso e as capacidades necessárias para interpretar as informações”. O que reforça que a disponibilidade e o uso das tecnologias não são suficientes para alcançar tal situação.


Dados divulgados pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República em 2016 revelam que 58% dos brasileiros têm acesso à internet, seguindo a tendência mundial de aumento anual da abrangência dos canais e dos recursos de comunicação do ciberespaço (BRASIL, 2016).


Ainda que o papel empoderador da internet possa ser exemplificado a partir da maneira como as interações online enriquecem as relações interpessoais a partir do desenvolvimento de relações sociais e pela construção da ideia de comunidade, ainda há controvérsias neste sentido, uma vez que pesquisadores da área questionam se a internet tem sido utilizada principalmente como meio para amplificar as vozes daqueles que já são ativos politicamente.


As características da internet facilitam a participação não somente de mais pessoas, mas também de grupos mais heterogêneos, o que possibilitaria a formação de comunidades virtuais “baseadas em pessoas com valores, interesses e preocupações semelhantes” (DAHLBERG, 2001, p. 10).


Acredita-se ainda que a internet tenha potencial para a formação de capital social, entendido como “um fator de participação política autônoma que apresenta efeitos sobre o capital humano, facilitando as relações sociais de interdependência e interação por meio das redes sociais” (MATOS, 2009, p. 101).


Considerando a utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) para informar, consultar, envolver, colaborar, capacitar e engajar, entende-se que o capital social pode ser, ao mesmo tempo, causa e consequência da participação, desta maneira, seria identificado com o nível de envolvimento associativo, ou seja, a ideia de que o indivíduo pertence a uma comunidade civicamente engajada, participando em variadas redes de interação (MATOS; NOBRE, 2013).


Considera-se que a internet representa um espaço plural nunca antes visto: a redução dos custos de participação, a suposta igualdade entre os participantes a partir da redução de pistas sociais, a interação entre representantes e representados, além das comunidades online evidenciam o potencial da rede.


No entanto, é preciso considerar o contexto de uso social da rede, uma vez que a evolução de qualquer tecnologia depende de sua interação com a sociedade, seja em circunstâncias econômicas, sociais, políticas e culturais, como explica Shane (2004). Neste sentido, os dispositivos de novas tecnologias de comunicação e informação, interativas e multifuncionais, muitas vezes têm sido observados como recursos para fortalecer o processo democrático.


O Observatório de Participação das Juventudes surge neste contexto, com o objetivo de mapear modalidades de participação que usam e se apropriam das tecnologias digitais a fim de informar, consultar, envolver, colaborar, capacitar ou engajar o jovem cidadão.



BRASIL. SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Pesquisa Brasileira de Mídia 2016: Hábitos de consumo de mídia pela população brasileira. Disponível em: <http://www.secom.gov.br/atuacao/pesquisa/lista-de-pesquisas-quantitativas-e-qualitativas-de-contratos-atuais/pesquisa-brasileira-de-midia-pbm-2016.pdf/view >. Acesso em: 27 out. 2019.

MATOS, H. A comunicação pública no Brasil e na França: desafios conceituais. Veredas, v. 8, n. 8, p. 99-114, 2009.

MATOS, H. H.; NOBRE, G, F. Comunicação pública e comunicação política: por uma interação entre cidadania e democracia. Organicom. Ano 10, número 19, 2013.

POLAT, R. K. The Internet and political participation: exploring the explanatory links. European Journal of Communication 20: 435, 2005. Disponível em:

<http://ejc.sagepub.com/content/20/4/435>. Acesso em: 06 nov. 2019.

9 visualizações
O OBSERVATÓRIO

O Observatório de Participação das Juventudes é uma plataforma de mapeamento de atividades de participação. Desenvolvido por Aline Camargo, o projeto traz resultados de pesquisa de Doutorado realizada no Programa de Pós – Graduação em Mídia e Tecnologia (Universidade Estadual Paulista Unesp) e possibilitada a partir do apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

RECEBA NOTÍCIAS DO OBSERVATÓRIO
  • Grey Facebook Icon
  • Grey Instagram Icon
  • YouTube - círculo cinza
  • Twitter - círculo cinza

© 2020 LM&Co. - feito com orgulho pela LM&Companhia.