Usos e apropriações de tecnologias digitais para a participação política das juventudes brasileiras

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Os veículos de comunicação de massa, dos tradicionais aos digitais, são responsáveis pela produção e difusão diária da maior parte dos conteúdos, informativos e opinativos, que exercem relevante papel na mediação da comunicação política e na formação geral de uma “opinião pública” midiatizada e uniformizada nos seus comportamentos e visões coletivas. É um fenômeno presente entre as sociedades contemporâneas desde o início do desenvolvimento e da popularização dos veículos de radiodifusão sonora e audiovisual. Assim, as diferentes camadas populacionais tornaram-se bastante midiatizadas e uniformizadas, tanto nos comportamentos e padrões de consumo material e simbólico, quanto nas visões coletivas sobre determinado assuntos de interesse público.


Desde o início da internet comercial, em meados dos anos 1990, a rede mundial de computadores passou a fornecer aos usuários um conjunto de ferramentas e de canais digitais com capacidade de difusão global de mensagens multimidiáticas, que se tornaram cada vez mais importantes para o desenvolvimento dos ativismos, político, cultural-educativo, artístico, laboral, e de tantas outras formas de comunicação e de mobilização social, que hoje interagem constantemente, em tempo real e com fluxos multilaterais utilizando uma imensidão de veículos e de ferramentas virtuais de interlocução coletiva.


No Brasil, apesar da abrangência do acesso à internet - 58% dos brasileiros têm acesso, de acordo com a Pesquisa Brasileira de Mídia (SECOM, 2017) - nota-se a ausência de estudos relevantes produzidos com abordagens sistemáticas e críticas sobre o papel das plataformas digitais como instrumentos mais direcionais de formação de opinião pública, e os efeitos produzidos por elas nas diversas classes e camadas sociais. Assim, é árdua a tarefa de avaliar com precisão os efeitos desencadeados durante um quarto de século de expansão da digitalização comunicativa entre os vários segmentos sociais; especialmente, a intenção de mensurar com metodologias científicas a participação política coletiva, cujas ferramentas indutoras estão distribuídas por dois caminhos distintos, mas que geram resultados complementares:


a) a digitalização dos conteúdos pode representar acesso social a um maior volume de informações


b) a rede oferece novas ferramentas e modalidades de participação e debate público.


Assim, as ferramentas e plataformas digitais da internet só poderão ser potencialmente democratizadoras se conseguirem promover uma comunicação “mais horizontal, interativa e solidária e buscarem uma ordem mais justa e igualitária mediante a maior autonomia social frente ao Estado e ao mercado”. A partir do desenvolvimento e disseminação do ciberespaço e de seus canais e ferramentas comunicativas, passou-se a acreditar que “as novas tecnologias digitais podem colaborar na criação ou sustentação de órgãos de poder e participação cidadã que ampliam e reformulam as formas de ação e interlocução dos sujeitos” (Caballero, 2006, p. 139).


No cenário contemporâneo de progressão do acesso às tecnologias, Dijk e Hacker (2000, p. 4) apontam alguns efeitos potenciais sobre o debate e a participação democrática propiciada pela utilização das TICs e da comunicação mediada por computador (CMC): a) as TICs aumentam a escala e a velocidade do fornecimento de informações; b) a participação política online pode ser mais fácil, uma vez que certos obstáculos individuais, como apatia, timidez, e falta de tempo podem ser reduzidos; c) a comunicação mediada por computador cria novas formas de organizar grupos específicos para discussão, diminuindo custos; d) a internet permite que novas comunidades políticas surjam sem intervenção do Estado; e) o sistema de hierarquia de discussão e participação política torna-se mais horizontal, permitindo que os cidadãos tenham mais voz na criação de agendas para o governo.


No entanto, o potencial de empoderamento social pela rede ainda é limitado ao uso social da tecnologia; apesar de o ambiente virtual ser propício para transparência e participação individual e coletiva, precisa haver questionamentos públicos sobre a maneira como se dá essa participação em todas as camadas sociais, e também como é feita a distribuição dos canais de acesso digital.


Neste sentido, Noveck (2004) salienta que as Tecnologias de Informação e Comunicação podem ser um trunfo para os regimes democráticos por oferecer estruturas tecnológicas que possibilitem que a comunicação interpessoal transforme-se em instrumentos de deliberação coletiva. O ambiente online oferece muitas oportunidades para a resolução de problemas coletivos. No entanto, existem poucas oportunidades e meios reconhecidos pelos poderes instituídos, para os indivíduos tentarem ajudar a resolver problemas e para lutar por aspirações comuns. Noveck (2004) aponta para um cenário em que não é somente necessário desenvolver ferramentas que facilitem a participação coletiva, mas também para desenvolver métodos para a sua aplicação nas instituições políticas e sociais.


Assim, as pesquisas desenvolvidas pelo OPJ tem a finalidade de verificar formas predominantes de usos e apropriações das tecnologias digitais com a intenção de incentivar a participação política das juventudes brasileiras. Neste sentido, será preciso considerar as tecnologias digitais como ferramentas político-culturais, nos aspectos referentes à disponibilização, circulação e consumo público de informações, à formação da opinião coletiva e suas formas de conexão pública, além da obrigatória análise entre as referidas juventudes, das maneiras e dos graus de participação política, daquilo que foi passível de mensuração objetiva.


BRASIL. SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Pesquisa Brasileira de Mídia 2016: Hábitos de consumo de mídia pela população brasileira. Disponível em: <http://www.secom.gov.br/atuacao/pesquisa/lista-de-pesquisas-quantitativas-e-qualitativas-de-contratos-atuais/pesquisa-brasileira-de-midia-pbm-2016.pdf/view >. Acesso em: 27 mai. 2018.

CABALLERO, F. S. Políticas de comunicación y de educación. Crítica y desarrollo de la sociedad del conocimiento. Barcelona: Gedisa, 2006.

DIJK, J. V.; HACKER, K. L. What is digital democracy. In: HACKER, K. L; DIJK, J. V. (eds.) Digital democracy: issues of theory and practice. New York: Sage publications, 2000.

NOVECK, B. S. Unchat: democratic solution for a wired world. In: SHANE, P. (ed.) Democracy online: the prospects for political renewal through the Internet. New York: Routledge, 2004.

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O OBSERVATÓRIO

O Observatório de Participação das Juventudes é uma plataforma de mapeamento de atividades de participação. Desenvolvido por Aline Camargo, o projeto traz resultados de pesquisa de Doutorado realizada no Programa de Pós – Graduação em Mídia e Tecnologia (Universidade Estadual Paulista Unesp) e possibilitada a partir do apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

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